Fernando Carpaneda e a polêmica escultura “Bolsonaro’s Sex Party”


Fernando Carpaneda
obra polêmica sobre Bolsonaro em NY


Jair Bolsonaro foi parar no The Leslie Lohman Gay Art Foudation, em Nova York — oficialmente o primeiro museu de arte gay dos EUA. É que Fernando Carpaneda, artista plástico brasileiro radicado na cidade, decidiu “homenagear” o deputado federal (PP-RJ) numa obra bem ousada — uma orgia.

A escultura Bolsonaro’s Sex Party fará parte do acervo permanente da fundação e ficará ao lado de trabalhos de artistas contemporâneos como Andy Warhol, Keith Haring e Robert Mapplethorpe. Ou seja, Bolsonaro vai ficar bem ao lado de alguns dos homossexuais mais famosos do mundo e das artes.

“Da mesma maneira que Bolsonaro tem direito garantido e imunidade parlamentar para ir à TV falar mal de gays e negros, eu, como brasileiro, também tenho o direito de me expressar em público sobre o deputado”, disse Carpaneda à coluna.

Desde quando se interessa por artes plásticas?
Fiz minha primeira exposição no Brasil com 13 anos de idade, em 1982. Meu trabalho sempre foi figurativo, direcionado à arte de rua e underground, sempre focando movimentos urbanos e o mundo gay. Saí do Brasil por falta de espaço, por fazer trabalhos figurativos numa época em que curadores brasileiros só mostravam trabalhos conceituais no país.

Prefere escultura ou pintura? E qual o impacto que elas causam nas pessoas?
Prefiro a escultura. Faço pinturas para relaxar a alma e descontrair. Esculturas tomam todo o meu tempo e consomem muito da minha energia. Levo entre 20 a 30 dias para fazê-las. O tamanho das esculturas varia entre 8 e 30 centímetros de altura. Não faço esculturas em tamanho natural, preferi me dedicar às miniaturas. Quanto ao impacto que elas causam? Bem… quando se trabalha com nus masculinos e pornografia, as pessoas se assustam. As pessoas transam todos os dias em todos os lugares. Acho o ser humano hipócrita.

Como você escolhe os temas?
Eu retrato o que se passa na minha vida ou o que acontece à minha volta. Como não consigo me calar diante de certas injustiças, acabo passando isso para os meus trabalhos também.

Você é um gay militante?
Nunca tive a intenção de ser militante, mas meus trabalhos acabaram me colocando nessa posição de militância de alguma forma.

Como encara o “choque” das pessoas? Pensa nisso antes de criar ou aproveita a polêmica para chamar a atenção?
Eu crio trabalhos que a maioria dos artistas plásticos não tem coragem de fazer, e como não faço parte da sociedade brasileira de defesa da tradição, família e propriedade, isso choca certas pessoas.

Como funciona seu processo criativo?
Eu sempre fui envolvido com o movimento punk, tanto aqui nos Estados Unidos como no Brasil, e acabei conhecendo todo tipo de gente e pessoas que têm outra postura e visão de vida. A base onde coloco a figura em argila é feita com objetos que o retratado usou, consumiu ou na situação em que esteve no mesmo espaço físico que eu. Uso guimbas de cigarros, latas de cerveja, caixas vazias de pastas de dente para compor a obra. Essa base representa o mundo do retratado. Depois faço a escultura em argila e acrescento frases ou poesias e plastifico a peça. Acho que, quando um cara coloca um salto, veste uma minissaia e vai pra esquina trabalhar, isso é um ato de enorme sinceridade com ele próprio e com o mundo. Ele está sozinho, desprendido de qualquer tipo de postura. São pessoas muito seguras do que fazem e exigem respeito. Sempre gostei disso desde criança. Essas pessoas, por terem uma estética fora do padrão e terem uma experiência de vida e de rua muito fortes sempre me influenciaram. Arte para mim é sentimento. Nunca vi muita diferença entre marginais de rua e marginais que trabalham no Congresso Nacional. Marginais por marginais, prefiro os de rua.

E a reação das pessoas?
A culpa é da TV, que mostra bichinhas caricatas, fazendo fofoca da vida alheia. Não mostram dois homens de terno se amando e tendo uma vida normal, falando grosso e de mãos dadas com seu namorado. Os pais imaginam que ter filho homossexual é ter uma Vera-Verão ou um Pit Bicha em casa e morrem de medo disso. A TV denigre sempre que pode o homossexual. Minhas esculturas mostram homens amando outros homens, drags, punks e marginais. Quando as pessoas vão a uma exposição minha se sentem agredidas com os trabalhos que mostram homens fortes se beijando. Na cabeça delas aquilo é inaceitável, pois o estereótipo que elas conhecem não é aquele. Minha arte ou você gosta ou odeia. Não existe meio termo. Tanto aqui nos EUA quanto aí no Brasil, a maioria das pessoas gosta.

Como surgiu a ideia de fazer a “Bolsonaro’s Sex Party”? É uma provocação? O que você pensa sobre o deputado?
Este assunto não é brincadeira! Eu tenho vários amigos negros que têm crianças pequenas e sempre tiveram problemas horríveis no colégio por causa da cor. Eu conheço a realidade dessas crianças de perto, assim como a realidade de gays adolescentes. Não precisamos que um idiota, mal informado e que se diz cristão incentive a descriminação e a violência contra negros e gays. Acho esse tal de Bolsonaro um idiota. Ele deveria ser afastado da política brasileira, assim como a Miriam Rios, o Pastor Édino Fonseca, entre outros imbecis homofóbicos que usam o nome de Jesus Cristo em vão. Algumas pessoas não entendem a obra, mas a escultura aborda ainda um protesto contra as campanhas homofóbicas como a da Igreja Batista americana “God hates Fags” (“Deus odeia os Viados”). Eu troco a palavra “odeia” e coloco a palavra “ama”. A escultura também tem a inscrição “A realidade é que às vezes fazemos sexo sem camisinha”, ou seja, um alerta sobre sexo sem proteção. Muitas pessoas criticam a escultura por falta de conhecimento sobre questões importantes relacionadas ao mundo gay. Quem não tem conhecimento sobre esses assuntos só consegue ver uma cena desnecessária de sexo.

Sofreu algum tipo de preconceito no Brasil? E nos EUA?
Preconceito existe em todos os lugares e nunca vai acabar. A diferença é que as leis nos Estados Unidos funcionam e no Brasil não.

Teve algum problema com a Igreja por conta dos seus trabalhos?
Sim. Os crentes sempre me atacaram. Sempre foram gritar e fazer orações nas minhas exposições no Brasil. Escrevi sobre isso na minha autobiografia “O Anjo de Butes”.

Pretende trazer uma mostra para cá?
Vou expor em Brasília, em junho, com o apoio da PLUS, galeria que me representa no Brasil e umas das poucas no país, junto com a Choque Cultural (SP), que tem uma visão mais aberta e atualizada sobre o que acontece em artes no exterior. Se tudo der certo, vou levar a escultura Bolsonaro’s Sex Party comigo. A escultura agora faz parte da Fundação Leslie Lohman, que há alguns meses se transformou oficialmente no primeiro museu de arte gay dos EUA. Estamos em negociação.

Para conhecer a obra de Carpaneda, visitem o site.

Monkey Business

João Paulo Feliciano transporta para dentro da galeria partes do seu atelier/estúdio e da sua vida quotidiana, questionando as relações e estatuto do artista e da galeria no contexto da arte contemporânea.

Não vamos ver apenas obras recentes de Feliciano (n. 1963, Caldas da Rainha), artista conhecido tanto pelo uso de diversos suportes - fotografia, pintura, escultura, instalações (muitas vezes sonoras) -, como pela sua actividade como produtor, compositor, intérprete e letrista de diversos projectos musicais.

Em "Monkey Business", o autor transporta para dentro da Cristina Guerra partes do seu atelier, tendo mesmo criado, por exemplo, na última sala da galeria, uma espécie de feira da ladra onde vamos poder encontrar não obras de arte mas uma série de objectos provenientes de diversas fontes e postos à venda por valores mínimos.

Por toda a exposição encontramos também esculturas juntamente com materiais como discos, catálogos, livros, objectos - produzidos ao longo da já extensa carreira de Feliciano no mundo da arte e da música.

Lisboa, Cristina Guerra - Contemporary Art - Rua Santo António à Estrela, 33
19-01 a 07-03. Segunda a sexta das 11h00 às 20h00 ; Sábado das 15h00 às 20h00 .
Grátis

Artistas angolanos expõem obras em Portugal

Um dos quadros do pintor angolano Nelo Teixeira que fica
patente ao público durante um mês na exposição
"1ª Paragem:Lisboa"
“1ª Paragem: Lisboa” é o título de uma exposição de arte contemporânea dos artistas plásticos angolanos Lino Damão e Nelo Teixeira, a ser inaugurada a 11 deste mês, em Lisboa, na Rua Marquês de Subserra.

Lino Damião disse que a exposição, que fica aberta ao público até 11 de Fevereiro, marca o início de périplo que os artistas vão fazer por Moçambique, Brasil e Angola para expor as suas obras.
“O nosso objectivo com essa exposição é de mostrar à comunidade lusófona o trabalho que estamos a realizar a nível das artes plásticas, sobretudo a pintura a óleo sobre tela”, disse Lino Damião.

Formado em pintura e escultura nas oficinas da União Nacional dos Artistas Plásticos (UNAP), Lino Damião nasceu em Luanda em Fevereiro de 1977 e trabalha sobretudo em pintura e gravura.
Muito cedo começou a desenhar e pintar, tendo frequentado o curso de desenho no Ex-Barracão, o curso de pintura e a primeira oficina de gravura na UNAP.

Frequentou o atelier do grande mestre Victor Teixeira (Viteix). É membro Fundador da cooperativa Pró-Memória dos Nacionalistas e membro da União Nacional dos Artistas Plásticos. Participou em diversas exposições, das quais se destaca a primeira bienal de jovens criadores da CPLP, na cidade da Praia, Cabo Verde, em 1999, a bienal de jovens criadores da CPLP, no Porto, Portugal, em 2000, no projecto ArteModa-2002, oficina de criação com Kotas e Kandengues, no projecto Galarte no Elinga Teatro, entre 2000 a 2006, e Trienal de Luanda.

Realizou várias exposições individuais com destaque para “Cores, Cómicos e Contrastes”, no Lebistrot Luanda (1999), “Manchas e contornos”, na Galeria Cenarius (2000); “Liberdade”, no laboratório Nacional de Cinema Luanda (2002), e recebeu o prémio de pintura de UNAP, em1998, e menção honrosa do Prémio Ensarte, em1996.

Nelo Teixeira, formado em pintura e escultura, em 2000, participou no Workshop de Pintura em Vidro orientado por Jean Luc no Salão da UNAP. Teve participação cenografia nos filmes “Heroi” e “Cidade vazia”. Participou em várias exposições colectivas na Celamar, Humbiumbi, Elinga Teatro, Soso Arte Contemporânea e Associação 25 de Abril.

Escultura e direitos humanos na exposição "Diante da lei"

Mostra no Museu Ludwig explora as relações entre as violações dos direitos dos direitos humanos desde a Segunda Guerra, ressaltando a escultura como forma de tornar a dor fisicamente perceptível.
"Diante da lei, está postado um porteiro", diz a primeira frase do famoso conto de Franz Kafka. Seu protagonista é um médico rural, que vai à cidade e pede para entrar na lei. Ele espera inutilmente pela permissão, e somente um pouco antes de morrer pergunta ao porteiro por que era o único a pedir ingresso ali. Essa porta lhe era exclusivamente destinada, é a resposta. O "Homem do Campo" descobre que a lei não é igual para todos, mas depende da interpretação.
A máxima vale até hoje. Os artistas também têm repetidamente visto seus direitos democráticos mais fundamentais serem pisoteados. Por isso, sobretudo após a Segunda Guerra Mundial, eles passaram a refletir sobre o direito de existir do ser humano: o que significa viver num mundo em que a dignidade humana é desprezada?

Pesquisa existencial
'Carrossel', de Bruce NaumanCom o foco na escultura, a exposição "Diante da lei" (Vor dem Gesetz), no Museu Ludwig, em Colônia, estuda como a violação dos direitos humanos influenciou a arte, desde o pós-guerra até hoje.
Segundo o curador Kasper König, a pintura só é capaz de ilustrar o sofrimento, e, por isso, traz consigo o perigo de tornar-se kitsch. Um dos mais importantes expositores da Alemanha, König criou em 1977 os Projetos de Escultura de Münster, que desde então acontecem a cada dez anos.
Há 11 anos, ele dirige o Museu Ludwig e, antes de entregar o cargo, em 2012, ele promove, mais uma vez, uma grande mostra em Colônia. Desta vez, tratando das condições básicas do ser humano. König procura, ao mesmo tempo, um retorno a questões existenciais da condição humana e um diagnóstico do tempo presente.

Dor em estado sólido
'Sem Título', de Marko Lehanka e 'Árvore', de Zoe LeonardUm dos mais antigos objetos em "Diante da lei" é Rapaz sentado, realizado por Wilhelm Lehmbruck em 1916-17. A figura de longos braços e pernas, que se apresenta introspectiva e triste, de cabeça baixa, só foi exposta pela primeira vez quase 30 anos mais tarde, na primeira Documenta de Kassel.
Também o Prometeu acorrentado (1948), de Gerhard Marcks, é um sofredor. A esguia figura, de membros delicados, revela uma proximidade com o expressionista Lehmbruck. Cabeça baixa, mãos atadas: com a escultura, Marcks tenta elaborar as vivências do nazismo.
A vulnerabilidade do corpo é tema central dos modernistas dos primeiros anos após a Segunda Guerra. Quer a figura mutilada de Henry Moore, a madona sem forças de Fritz Cremer, ou La jambe, de Alberto Giacometti – uma única perna, como uma prótese, sobre um pedestal: todas irradiam uma sensação de impotência. A arte dessa época prova que capacidade a arte tem de tornar a dor fisicamente perceptível.

Local de prova
'Construindo uma nação', de Jimmie DurhamA arte contemporânea não mais se restringe ao lugar, ou a um pedestal, mas parte para experiência no espaço. O melhor exemplo disso é o Carrossel de Bruce Nauman: envolvidos numa cor cinzenta, morta, restos de cadáveres de animais pendem de varas giratórias.
Na entrada da exposição, a vasta instalação Building a nation (Construindo uma nação), do artista norte-americano Jimmy Durham, toma o espaço. Ela tematiza a ocupação da América do Norte pelos colonizadores europeus e lembra um prédio devastado.
Fragmentos de uma porta ou de móveis apenas deixam vislumbrar uma arquitetura. Das poucas paredes pendem slogans racistas de norte-americanos, soando como a arrogante exigência "Fora com os índios!". Durham é, ele próprio, de origem indígena, e elabora de forma muito pessoal sua vivência do genocídio.
A mostra em Colônia confronta esculturas históricas e grandes instalações contemporâneas. O tema da violação dos direitos humanos as atravessa como um fio condutor. "Diante da lei" transforma o museu num local de exame e reflexão: onde estamos, hoje, como seres humanos, como artistas, como sociedade?

Autoria: Sabine Oelze (av)
Revisão: Soraia Vilela

1983 - Pintor espanhol Joan Miró morre em Palma de Maiorca

 Joan Miró, pintor, escultor e ceramista catalão
Surrealista teceu, ao lado de cubistas e fauvistas, um contraponto à arte tradicional burguesa.

 Joan Miró, pintor, escultor e ceramista catalão, nascido em Barcelona, morre em Palma de Maiorca, Espanha, em 25 de dezembro de 1983.

 Apesar da insistência do pai em vê-lo graduado, não completou os estudos. Frequentou uma escola comercial e trabalhou num escritório por dois anos até sofrer um esgotamento nervoso. Em 1912, seus pais finalmente consentiram que ingressasse numa escola de arte em Barcelona. Estudou com Francisco Galí, que o apresentou às escolas de arte moderna de Paris, transmitiu-lhe sua paixão pelos afrescos de influência bizantina das igrejas da Catalunha e o introduziu à fantástica arquitetura de Antonio Gaudí.

Conquistando consagração internacional, seu trabalho foi classificado como surrealista por apropriar-se do pensamento subconsciente, da recriação da meninice e do orgulho catalão.

Em numerosas entrevistas a partir dos anos 1930, Miró expressou desprezo pelos métodos convencionais de pintura que, a seu ver, sustentavam a sociedade burguesa. Numa famosa declaração, manifestou-se a favor do ‘assassinato da pintura’ como meio de transtornar os elementos visuais tradicionais. Contemporâneo do fauvismo e do cubismo, Miró criou sua própria linguagem artística, procurando retratar a natureza como o faria o homem primitivo ou uma criança que tivesse, no entanto, a inteligência de um homem maduro do século 20.

Miró trazia intuitivamente a visão despojada de preconceitos que os artistas das escolas fauvista e cubista buscavam. Em sua pintura e desenhos, tentou criar meios de expressão metafórica, ou seja, descobrir signos que representassem conceitos da natureza num sentido poético e transcendental.

De 1915 a 1919, trabalhou em Montroig, próximo a Barcelona, e em Maiorca, onde pintou paisagens, retratos e nus. Depois, passou a alternar entre Montroig e Paris. De 1925 a 1928, influenciado pelo dadaísmo, pelo surrealismo e principalmente por Paul Klee, pintou cenas oníricas e paisagens imaginárias. Após uma viagem aos Países Baixos, onde estudou a pintura dos realistas do século XVII, os elementos figurativos ressurgiram em suas obras.

Na década de 1930, seus horizontes artísticos se ampliaram. Fez cenários para balés, e seus quadros passaram a ser expostos regularmente em galerias francesas e americanas. As tapeçarias que realizou em 1934 despertaram seu interesse pela arte monumental e mural. Estava em Paris quando eclodiu a guerra civil espanhola, cujos horrores influenciaram sua produção artística desse período.



Canção do rouxinol à meia-noite, de Joan Miró

No início da segunda guerra mundial voltou à Espanha e pintou a célebre "Constelações", que simboliza a evocação de todo o poder criativo dos elementos e do cosmos para enfrentar as forças anônimas da corrupção política e social causadora da miséria e da guerra.

A partir de 1948, mais uma vez dividiu seu tempo entre a Espanha e Paris. Nesse ano, iniciou uma série de trabalhos de intenso conteúdo poético, cujos temas são variações sobre a mulher, o pássaro e a estrela. Algumas obras revelam grande espontaneidade, enquanto que em outras percebe-se técnica altamente elaborada. Esse contraste também aparece em suas esculturas.

Em 1954, ganhou o prêmio de gravura da Bienal de Veneza e, quatro anos mais tarde, o mural que realizou para o edifício da UNESCO em Paris ganhou o Prêmio Internacional da Fundação Guggenheim. Em 1963, o Museu Nacional de Arte Moderna de Paris realizou uma exposição de toda a sua obra.

A musa e o minotauro

A musa e o minotauro é o título popular para a coleção de gravuras que Pablo Picasso fez inspirado em seu caso de amor com Marie-Thèrése Walter, que se tornou sua amante aos 18 anos, quando ele próprio tinha 50. Distante do público desde 1951, as estampas voltam à cena nas galerias do Museu Britânico.


O caso de amor entre Picasso e Marie-Thérèse


Pablo Picasso e Marie-Thèrése

Muitas vezes Picasso se retratou como um minotauro meio homem, meio touro, da mitologia grega. Um monstro capaz de uma sexualidade violenta, erótica e, até, cruel. Era assim que o pintor se via, um homem capaz de devorar as mulheres com suas paixões. Foi assim que viveu.

O caso de amor entre Pablo Picasso e Marie-Thérèse Walter

Pablo Picasso conheceu Marie-Thérèse (1901-1977), no dia 8 de janeiro de 1927, em frente à Galeries Lafayette (Paris). Na época, o pintor era casado com a bailarina Olga Khokhlova, mesmo assim, daquele ano em diante, Marie-Thérèse permaneceria próxima a casa da família.

Quando Picasso comprou um castelo, em Boisgeloup (1930), que usou como estúdio, principalmente para esculturas, Marie-Thèrése ainda era a sombra da família e a musa do pintor. Olga, a esposa, só descobriu o caso de amor do marido quando Marie-Thèrése ficou grávida. Acabou abandonando Picasso e indo morar, com seu filho Paulo Picasso, no sul francês.

A filha de Picasso e Marie-Thèrése, Maya, (foto ao lado), nasceria em 5 de setembro de 1935. Embora o pintor nunca tenha se divorciado de Olga, para evitar a partilha de bens, Pablo e Marie-Thèrése viveram juntos até 1936, quando a mulher se mudou para Le Tremblay-sur-Mauldre, próximo a Versalhes.

Picasso continuou visitando as duas mulheres, mesmo depois da mudança. Naquele mesmo ano, Picasso se encantaria por outra mulher, Dora Maar (1936). Foi o fim do caso com Marie-Thèrése. No entanto, mantiveram contato até pelo menos 1943. O pintor visitava a ex-amante semanalmente e para ela escreveu longas cartas de amor.

O artista se responsabilizou financeiramente pelas duas mulheres até o final da vida, em abril de 1973. Quatro anos depois, 20 de outubro de 1977, Marie-Thèrése cometeu suicido na garagem de sua casa em Juan-les-Pinos (Côte d'Azur/França).

Em sua carta de despedida para a filha Maya, Marie-Thèrése falou de um impulso irresistível. Maya escreveu mais tarde que não foi apenas a morte do pai que levou ao suicídio sua mãe, mas a “insanidade” da relação entre eles. Na carta Thèrése diz:
“Eu não podia suportar a idéia de que ele estava sozinho, sozinho, com seu túmulo cercado por pessoas que não podiam dar-lhe o que eu havia lhe dado."

Uma das mais famosas pintura que Picasso fez de Marie-Thèrése


Le Rêve (O sonho) é uma das mais famosas pinturas que Picasso fez de Marie-Thèrése e, talvez, a mais polêmica.

Segundo alguns, a tela foi pintada em uma tarde de janeiro de 1932. Le Rêve (imagem ao lado) é uma representação pictórica distorcida, um esboço bastante simplificado de cores contrastantes, que lembra os fauvistas (as feras – grupo de artistas modernos caracterizados pelo uso do pictórico e das cores fortes, em contraponto ao impressionismo).

A grande controvérsia causada pela pintura é seu sentido erótico, simbolizado pelo presumível pênis ereto no rosto (face direita) da modelo.

Um diário visual de amor – A musa e o minotauro


O diário construído por Picasso durante sua relação com Marie-Thérèse Walter pode ser considerado um diário de amor. Em aproximadamente cem gravuras o pintor si autoretrata, muitas vezes como um minotauro, ao lado de sua amante e musa.

Criadas entre 1930 e 1937, as gravuras são conhecidas como “Suíte Vollard”, por ter sido negociada por Ambroise Vollard. Agora pertencentes ao Museu Britânico, por doação de Hamish Parker, serão apresentadas, após cinquenta anos, ao público inglês.

Gravuras – A musa e o minotauro

O minotauro acaricia uma mulher dormindo (1933)

O minotauro, cego, é guiado por uma menina no meio da noite (1934)

A modelo, nua, pousa para o escultor (1933)

A modelo olha-se ao espelho, enquanto o escultor a observa (1933)

Vollard II (1937)


Modelo olha sua cabeça esculpida (1933)

Escultor e modelo apreciam a escultura (1933)

A escultura, a pintura e a modelo (1933)

Uma tradução contemporânea para a história da arte

“Os olhos têm o brilho e a umidade que se costumam ver nos seres vivos, e em torno deles percebem-se zonas lívidas e rosadas, assim como pelos, coisas que não é possível fazer sem muita sutileza. Os cílios, representados no modo como nascem na carne, ora mais densos, ora mais ralos, obedecendo ao giro dos poros, não poderiam ser mais naturais. O nariz, com aquelas belas narinas róseas tenras, parece estar vivo. A boca, cuja fenda termina em cantos de um vermelho que une à carnação do rosto, na verdade, não parece feita de tintas, mas de carne. Na base de seu pescoço, quem olhar atentamente verá a pulsação das artérias: pode-se dizer que essa pintura foi feita de uma maneira capaz de causar medo e temor a qualquer artista valente, fosse ele qual fosse.”

O célebre retrato de Mona Lisa, do pintor e escultor florentino Leonardo da Vinci (1452-1519), todos conhecem: Gioconda está guardada sob o número 1061, no Museu do Louvre, e imortaliza a bela esposa do comerciante Francesco del Giocondo. Já esse excerto de abertura que você acabou de ler - provavelmente pela primeira vez - não: chega apenas agora ao português, compondo a obra em que foi publicado originalmente, em 1550, Vidas dos artistas (WMF Martins Fontes, 824 páginas, R$ 125). O título, de autoria de um também artista italiano, Giorgio Vasari (1511-1574), não é somente um olhar talentoso, apaixonado e contemporâneo ao cinquecento…

São as páginas que fundam a historiografia da arte ou, em outras palavras, a primeira e incontornável obra crítica voltada a nomes não menos talentosos que Da Vinci, como foram o pintor e arquiteto Rafael de Urbino (“Em Rafaello, resplendiam claramente todas as egrégias virtudes da alma, e a graça, o estudo, a beleza, a modéstia e os bons costumes que as acompanhavam eram tamanhos, que teriam encoberto e escondido qualquer vício, por mais feio, e qualquer mácula, por maior que fosse”); ou seu oponente, Michelangelo Buonarroti (“e que ninguém acredite jamais vir a contemplar um nu tão divino pela beleza dos membros e pela maestria do corpo, não havendo morto que mais se assemelhe àquela morte”, escreve Vasari, sobre a escultura La Pietà).

Na própria linguagem de Vasari - para além de seus quadros e de projetos arquitetônicos bem-sucedidos como o da Galleria degli Uffizi, sede do museu principal de sua cidade natal, Florença; para além de um ou outro equívoco factual; para além de suas preferências pessoais e alianças políticas -, um dispositivo de aproximação capaz de preservar o susto, o deslumbramento, a capacidade de contemplação diante de obras desbotadas pela estereotipia do sempre aligeirado olhar moderno.

Serviço

Vida dos artistas, de Giorgio Vasari
Editora: Martins Fontes
Preço médio: R$ 125

Vida de Michelangelo Buonarroti, de Giorgio Vasari
Editora: Unicamp
Preço: R$ 86


Trecho do livro

"Enquanto retratava a Mona Lisa, que era belíssima, por perto sempre havia pessoas a tocar ou cantar, bem como bufões que a mantinham alegre, para eliminar aquela melancolia tão frequente na pintura e nos retratos que se fazem. E, nesse retrato feito por Leonardo, há um sorriso tão agradável que mais parece coisa divina que humana, tão admirável por não ser diferente do natural"
Vasari, sobre o sorriso da Mona Lisa

Entrevista >> Luiz Marques

“Estudar Michelangelo é como adentrar um universo”

Em especial, quais as passagens de Vidas dos artistas permanecem entre as mais pertinentes e belas e quais são vistas hoje em dia como afetação de época?
As “Vidas” são compostas basicamente por três tipos de textos: Os tratados técnicos, os Proêmios mais teóricos às três Idades em que Vasari periodiza sua história (os anos 1250 a 1400; os anos 1400 a 1500 e os anos 1500 a 1550) e as biografias propriamente ditas. Neste conjunto, destacam-se sem dúvida os Proêmios à Segunda e à Terceira Idade, por sua capacidade de elaborar uma teoria da história e organizar conceitualmente o conjunto do período. Além disso, algumas biografias são excepcionalmente importantes, tais como a de Giotto, a de Masaccio e a dos três mestres maiores da Terceira Idade: Leonardo da Vinci, Rafael e Michelangelo. Mas é a Vida de Michelangelo que coroa o conjunto da obra, e é muito mais longa e detalhada que as demais, que concentra as linhas de força do pensamento de Vasari. Isto posto, há uma infinidade de momentos belíssimos dispersos ao longo do texto, sobretudo no que se refere à percepção do que é peculiar em cada obra mencionada. Vasari é um mestre da descrição visual, arte que chamamos écfrase. Quanto às passagens menos atuais, diria que há poucas. São evidentemente redundantes e excessivos seus elogios a Cosimo I, o duque de Florença de quem Vasari é cortesão. Mas seria provavelmente errôneo considerá-los simples afetação e hipocrisia, pois Vasari parece realmente venerar seu duque.

Quem foi o Vasari artista? Ela usava o conhecimento do métier nas suas observações pessoais?
Embora não seja escultor, Vasari conhece a fundo o ofício dos artistas de que trata, pois é pintor e arquiteto de enorme talento. Seus dotes como pintor foram, por vezes, depreciados pelos historiadores, pois seus resultados neste campo são efetivamente desiguais. Mas penso que há não poucos êxitos altíssimos em sua obra de pintor e desenhista. Já seu talento como arquiteto é universalmente reconhecido.

Vidas dos artistas e Vida de Michelangelo Buonarroti pela primeira vez em português. Qual o significado destas edições para o estudo da história da arte no Brasil?
Traduzir Vasari para o nosso idioma, possibilitando assim o conhecimento mais generalizado entre nós da primeira, e ainda a mais importante, história da arte da Idade Moderna, é uma etapa imprescindível para a superação do isolacionismo em que se mantiveram, até há pouco, os estudos sobre a história da arte no Brasil. Há duas traduções em alemão, duas em francês, três em inglês, e até agora não havia nenhuma em português, o que é bem sintomático de nosso provincianismo, tanto em Portugal como no Brasil. Seria desejável que se publicasse no futuro uma tradução também da edição de 1568 das Vidas, revisada e muito ampliada pelo autor. Mas esta primeira versão de 1550 e minha própria tradução comentada da Vida de Michelangelo constituem um começo prometedor. Ambas as edições devem ser lidas, de preferência, com o auxílio de dois sítios brasileiros da internet que contêm muitas das ilustrações e comentários das obras mencionadas por Vasari e outras obras correlatas: www.vasari.art.br e www.mare.art.br.

A escrita e a metodologia de Vasari emulam as técnicas artísticas de seu tempo? Em que sentido? Como Vasari procedia para levantar informações e realizar suas observações?
Sobre a metodologia de Giorgio Vasari (1511-1574) relativa ao modo como ele organiza o vasto material histórico que redunda em sua monumental Vidas dos mais excelentes pintores, escultores e arquitetos, de Cimabue aos nossos dias (1550 e 1568), há de fato pouco documentação. Um desenho de Vasari (ou de seu discípulo, Prospero Fontana), conservado em uma coleção privada em Boston, mostra no verso uma lista de artistas. Trata-se do único vestígio conservado do canteiro de obras do historiador. Sabemos, por outro lado, que este trabalho de coleta e organização do material ocupou-o por aproximadamente dez anos, isto é, de 1538 e 1548.

Vasari é incontornável para os historiadores do cinquecento. Em qual circunstância aconteceu seu encontro com ele? Por que seu especial interesse por Michelangelo? Fale-me um pouco da produção de seu ensaio/tradução publicado pela Unicamp (uma pesquisa de 20 anos, pois não?).
Qualquer pessoa que volte seu interesse para a história do Renascimento italiano deve forçosamente confrontar-se com a figura excepcional de Michelangelo (1475-1564), o artista que domina seu século. Segui, portanto, o curso natural das coisas, tão logo comecei a me interessar pela história da arte, interesse hoje canalizado para o projeto de um Museu de Arte para a Pesquisa e a Educação, de acesso irrestrito na internet (www.mare.art.br). Mas quando comecei a traduzir a Vida de Michelangelo, de Vasari, não avaliei o quanto tal projeto seria absorvente. Estudar Michelangelo é como adentrar um universo. É como contrair o vírus de uma doença incurável, com a peculiaridade de se tratar de uma doença de que você não deseja se curar.

Michelangelo era o único artista vivo à época da publicação das biografias de artistas de Vasari. Eles mantiveram algum tipo de relação pessoal?
Quando da primeira edição, de 1550, atualmente traduzida para o português, Michelangelo era de fato o único artista vivo. Depois, na edição muito ampliada e revista de 1568, Vasari inclui muitos outros artistas vivos. A amizade entre ambos data provavelmente de 1542 ou 1543, quando Vasari é hóspede em Roma de um amigo comum, o banqueiro florentino Bindi Altoviti. Desde então, suas relações se adensaram sempre mais, e é possível afirmar, sem sombra de dúvida, que Vasari viria a se contar rapidamente entre os amigos mais diletos do grande mestre.

“Michelangelo representava a ascensão da civilização florentina” sobre Roma, observa Giovanni Previtali. De quais valores ele está falando? Há uma oposição manifesta entre Michelangelo e Rafael? De que ordem?
A ascendência de Florença sobre Roma já estava consolidada desde, ao menos, o início dos anos 1480, quando os artistas florentinos decoram com afrescos as paredes laterais da Capela Sistina. Mas, com Michelangelo, esta ascendência atinge seu ápice, no sentido em que, a partir dos seus afrescos da abóbada da Capela Sistina, ele se firma em toda a Itália central como o modelo único de excelência. Embora Rafael (1483-1520), artista mais jovem que Michelangelo, seja capaz de criar desdobramentos mais efetivos na cultura figurativa do século 16, ele próprio é reconhecidamente tributário de Michelangelo. A oposição entre ambos, portanto, decorre mais de uma luta pelo controle das grandes encomendas artísticas da Roma pontifícia que de uma oposição artística. Rafael será responsável por uma interpretação pictórica de Michelangelo, cuja pintura permanece uma transposição para a parede de uma arte que se concebe sempre como escultura.

Prémio Turner 2011 para escultor Martin Boyce

O artista plástico Martin Boyce venceu hoje o Prémio Turner 2011 de arte contemporânea, um dos mais importantes do mundo, com uma homenagem escultórica à arquitetura modernista.

Boyce impôs-se aos três outros finalistas -- o pintor George Shaw, a vídeo-artista Hilary Lloyd e a criadora de instalações Karla Black -- com um trabalho intitulado «A Library of Leaves», uma variação escultórica elaborada a partir de uma mesa de trabalho desenhada pelo francês Jean Prouve para a Casa do Estudante de Paris, em que, segundo o júri, o artista dotou o objeto quotidiano original de profundidade e textualidade.

O vencedor do galardão foi anunciado hoje à noite numa cerimónia apresentada pelo fotógrafo Mario Testino, que se realizou no centro Baltic de Arte Contemporânea de Gateshead, no nordeste de Inglaterra, onde os trabalhos dos quatro artistas estão patentes desde outubro.

O fado já é património mundial

Depois de uma espera de quase dois dias, a candidatura
portuguesa foi finalmente aprovada
A notícia chegou via SMS: “O Fado já é património imaterial da humanidade”. Sara Pereira, directora do Museu do Fado, estava sentada na sala onde o comité intergovernamental da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) esteve a votar as candidaturas a património cultural imaterial da humanidade, em Bali, na Indonésia, quando o resultado da votação foi anunciado e enviou a mensagem.

Foram precisos pouco mais de cinco minutos para que a decisão fosse tomada por unanimidade (os 23 delegados presentes – faltou apenas um – votaram a favor), com grandes aplausos, conta ao PÚBLICO pelo telefone o musicólogo Rui Vieira Nery, presidente da comissão científica da candidatura. “Foi uma grande alegria que pôs fim a uma grande ansiedade”, admite Nery, referindo-se ao ritmo lento dos trabalhos na reunião de Bali. “Já não acreditávamos que fosse aprovada hoje.”

O fado foi a última candidatura avaliada na sessão deste domingo, que terminou às 20h30 (12h30, hora de Lisboa), depois de terem passado à votação mais de 30 propostas. E, mesmo assim, foi recebido com grande entusiasmo, diz o musicólogo. Para esse clima de festa contribuiu, “e muito”, o breve discurso de António Costa, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, entidade que formalizou a candidatura junto da UNESCO: “O Dr. António Costa decidiu terminar as suas palavras, já a fechar a intervenção de Portugal, chegando o seu iPhone ao microfone e deixando que a sala ouvisse Amália cantar ‘Estranha forma de vida’. Foi uma emoção acabar com a voz de Amália num fado de [Alfredo] Marceneiro. A sala levantou-se num enorme aplauso.”

A partir de agora, o fado não é apenas a canção de Portugal, a canção de Severa, Marceneiro, Amália, Carlos do Carmo, Camané, Ana Moura e Carminho - é um tesouro do mundo. Um tesouro que fala de Portugal, da sua cultura, da sua língua, dos seus poetas, mas que também tem muito de universal nos sentimentos que evoca: a dor, o ciúme, a solidão, o amor.

Optimismo comprovado

O optimismo à volta da eventual entrada do fado para a Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade era grande desde que, em Outubro, a comissão de peritos da UNESCO considerou a candidatura portuguesa “exemplar”, mas vê-la formalizada compensa definitivamente anos de trabalho de uma série de especialistas, músicos e intérpretes.

Foi em 2005 que Portugal começou a preparar mais seriamente esta candidatura que o Museu do Fado, em nome da Câmara Municipal de Lisboa, formalizou em Junho do ano passado (tinham passado apenas dois anos sobre a aprovação da Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial). Mas a ideia, ou o sonho, tem quase 20 anos - surgiu por altura da Lisboa Capital Europeia da Cultura, em 1994, garantiu ao PÚBLICO há dias Ruben de Carvalho, vereador da CDU em Lisboa e um dos que mais apoiaram o projecto desde o início.

Em 2010, o fado apresentou-se à UNESCO como “símbolo da identidade nacional” e “a mais popular das canções urbanas” portuguesas, tendo por embaixadores dois intérpretes que, por motivos bem diferentes, fazem parte da sua história de forma incontestada: Carlos do Carmo e Mariza.

A canção que deve a Amália os primeiros grandes esforços de internacionalização é uma das 49 candidaturas a património imaterial da humanidade que já foram votadas nesta reunião que só termina na próxima terça-feira, dia 29.

A lista do património imaterial - uma designação que abrange tradições, conhecimentos, práticas e representações que fazem a matriz cultural de um país e que, juntas, formam uma espécie de tesouro intangível do mundo - tinha até à reunião de Bali 213 bens de 68 Estados, como o tango ou o flamenco, só para falar em dois exemplos de universos semelhantes. O fado é o primeiro bem português, mas, se tudo correr bem, já não faltará muito para que o cante alentejano lhe faça companhia.

UNESCO começa hoje a analisar candidatura do Fado

Comité Inter-Governamental da UNESCO analisa entre hoje e a próxima terça-feira as candidaturas a Património Imaterial da Humanidade.

        
O VI Comité Inter-Governamental da UNESCO, que analisará a candidatura do Fado a Património Imaterial da Humanidade, começa hoje, em Bali, na Indonésia, decorrendo até dia 29.

O comité é presidido pelo embaixador da Indonésia junto da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Ciência, Educação e Cultura), Aman Wirakartakusumah, e é constituído por 24 países, entre eles, Espanha, Quénia, Japão e Venezuela.

A delegação portuguesa deverá chegar quinta-feira a Bali, sendo composta pelo presidente cessante da Comissão nacional da UNESCO, embaixador Fernando Andresen Guimarães, o presidente da Comissão Científica da candidatura, Rui Vieira Nery, a diretora do Museu do Fado, Sara Pereira, e ainda o presidente da Câmara de Lisboa, António Costa e a vereadora da Cultura, Catarina Vaz Pinto.
Os 24 delegados deverão analisar um total de 49 candidaturas para inscrição na lista do Património Imaterial da Humanidade, entre as quais a do Fado.

Uma das sete recomendadas

A candidatura portuguesa é uma das sete melhor recomendadas pelo Comité de Peritos da UNESCO, devendo o veredito ser conhecido na madrugada de domingo.

Ao lado da candidatura portuguesa, o Comité de Peritos recomendou também a do Peru, sobre o conhecimento dos jaguares pelos xamãs da tribo ameríndia colombiana Yurupari, a da música Mariachi, apresentada pelo México, a das danças Nijemo Kolo da Dalmácia pela Croácia, a da música e dança tsiattista do Chipre e a da cavalgada de reis da Morávia, pela República Checa.

Nesta categoria entre as 49 candidaturas, Coreia do Sul, China, Japão e Índia detêm o maior número de propostas - seis cada -, seguindo-se a Mongólia com cinco. Com duas candidaturas encontra-se a Croácia, a França, a Espanha, a Turquia e o Sultanato de Omã. Com apenas uma candidatura, além de Portugal apresentam-se Bielorrússia, Bélgica, Colômbia, Chipre, República Checa, Irão, México e Peru.
Há ainda uma candidatura transnacional partilhada pelo Mali, Burkina-Faso e Costa do Marfim que é a das práticas e expressões culturais ligadas ao "balafon" das comunidades Sénoufo do Mali, Burquina-Faso e Costa do Marfim.

Comité constituído por 24 Estados

Da ordem de trabalhos deste Comité constam outros pontos, a análise das 23 candidaturas ao Património Imaterial com referência de Salvaguarda Urgente por se encontrarem em risco, a votação das Melhores Práticas de Salvaguarda do Património Cultural Imaterial, à qual se apresentam 12 candidatos, cinco deles provenientes do Brasil, três de Espanha e os restantes quatro têm, cada um, origem na Argentina, Bélgica, Hungria e Letónia.
Os 24 Estados que constituem o Comité são: Albânia, Azerbaijão, Burquina-Faso, China, Chipre, Coreia do Sul, Croácia, Cuba, Espanha, Grenada, Indonésia, Irão, Itália, Japão, Jordânia, Madasgáscar, Marrocos, Nigéria, Niger, Omã, Paraguai, Quénia, República Checa e Venezuela.

Arte regressa à FIL

A Feira Internacional de Lisboa (FIL), no Parque das Nações, volta a receber a Arte Lisboa, entre os dias 23 e 27. Pintura, escultura, vídeo, fotografia e outras formas de Arte estão na 11.ª edição do certame.

Ali estão representadas 33 galerias com 21 projectos individuais e um ciclo de debates.

Do total de galerias, 21 são nacionais e 12 espanholas. Mas há também os já mencionados 21 projectos individuais de artistas cujas galerias estão representadas na feira, no espaço Propostas ARTE Lisboa 2011.

Está previsto também um programa de debates, em parceria com a Antiframe Independent Curating Project, que conta com a colaboração de artistas, galeristas, directores de museus, críticos, curadores, e outros agentes culturais.

Os temas a tratar são «A cultura desassossegada num Portugal sossegado», «O artista e a santíssima trindade: Coleccionador, galerista e curador», «A crítica que não dói em Portugal», «Quero ser artista. E agora? Terei de emigrar?» e «A comunicação nas artes feita refém dela própria».

Quando o tempo já está mais frio e convida a actividades de interior, esta é uma boa proposta para os amantes das diversas artes.

Espanho Enrique Ramos Guerra vence Prémio Ibérico de Escultura de Serpa

O espanhol Enrique Ramos Guerra venceu a quarta edição do Prémio Ibérico de Escultura da Cidade de Serpa com a peça em aço "Silueta 7", anunciou a autarquia serpense no último fim-de-semana.

O escultor recebeu um prémio de 7.500 euros, sendo que foram ainda distinguidas com menções honrosas as obras do português Hugo Maciel e do espanhol Jesus Algovi.

 Enrique Ramos Guerra é licenciado em Belas Artes (Pintura e Gravura) pelas Faculdades de Sevilha e de Madrid e é catedrático de Desenho e professor-titular de Modelação na Faculdade de Belas Artes de Sevilha.

A edição de 2011 do Prémio Ibérico de Escultura da Cidade de Serpa contou com 27 participantes e 13 esculturas seleccionadas em exposição, patentes ao público até ao fim do ano no percurso exterior que liga o cine-teatro municipal e a Biblioteca Municipal de Serpa.

Do júri desta edição fizeram parte António José Matos e João Duarte (ambos professores de Escultura da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa), Juan Tejera de Jesus (artista plástico), Isabel Estevens (vereadora da Câmara Municipal), Olegário Martin Sanchez e Santiago Navarro (professores de Escultura da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Sevilha).

 "Silueta 7" irá juntar-se a "Medievo" (vencedora da primeira edição), "Máxima" (segunda edição) e "Olhador" (terceira edição), esculturas que já fazem parte da paisagem urbana de Serpa.

Diplomata americano oferece escultura a Serralves

O parque do museu recebe a obra em bronze "La Baigneuse Drapée", concebida em 1921 por Aristide Maillol.

 Um diplomata norte-americano, Robert Illing, já reformado e atualmente a residir em Portugal, resolveu doar à Fundação de Serralves a escultura em bronze "La Baigneuse Drapée", do escultor e pintor francês Aristide Maillol (1861 - 1944).

Robert Illing viu nesta doação uma forma de homenagear a sua mulher, Georgina Illing, recentemente falecida.

A escultura fica exposta de forma permanente no Roseiral do Parque de Serralves e permitirá, assim, um primeiro contacto com a obra de Maillol, conhecido sobretudo por ser um escultor do nu feminino.

Influenciado, entre outros, pelo seu contemporâneo Paul Gauguin, Aristide Maillol estudou na Escola de Belas Artes de Paris entre 1882 e 1886. Em 1893 Gauguin propôs-lhe que se integrasse no grupo "Nabis", que veio a desenvolver uma linguagem simbolista e antinaturalista.

No início do século XX, Aristide, que já antes abandonara a pintura para trabalhar a tapeçaria e a gravura em madeira, passou a dedicar-se exclusivamente á escultura.

Artista premiado, com uma obra extensa, muitas vezes apelidado de "Cézanne da escultura", Maillol morreu em 1944 como consequência de um acidente de automóvel.

O caleidoscópio pulsante e contemporâneo de Ridolfi

O pintor Paolo Ridolfi consegue algo raro para quem mora em Maringá, onde nasceu em 1962: ele se destaca na cena contemporânea, desenvolve seu trabalho na cidade do interior e reverbera nas principais metrópoles culturais brasileiras. É nesta condição que desembarca nesta terça-feira (8) em Curitiba com 25 telas produzidas entre 2008 e 2001 para uma individual da Galeria SIM, de Guilherme Simões de Assis, uma casa aberta ainda este ano com o propósito de oferecer ao curitibano janela para a produção contemporânea - na pintura, escultura, instalação, vídeo-instalação e outros formatos. 

Ridolfi se encaixa como uma luva na proposta do novo espaço. Seus trabalhos estão na vanguarda da arte contemporânea e esbanjam frescor, cores e movimento. E não precisa ser jornalista que gosta de arte para dizer isto. Basta pegar o testemunho de Agnaldo Farias, crítico de arte e curador independente, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, que assinou curadorias das Bienais de São Paulo em três ocasiões, além de ser curador-chefe do MAM do Rio de Janeiro e diretor de exposições temporárias do MAC de São Paulo. O sujeito tem background e não gasta munição à toa: 

"O requinte dessa peculiar investigação sobre os vários modos de se ativar uma superfície plana estende-se dos 'azulejos' às composições povoadas por linhas coloridas, curtas e ritmadas, organizadas em múltiplos matizes, numa singular mescla da optical arte com o pop. Com essas linhas o artista constrói vórtices, junta-as em pilhas, sempre obtendo irradicações de alta temperatura cromática, com uma desenvoltura que há muito não se vê na paleta dos nossos artistas, nem mesmo entre seus colegas de geração 80", diz Agnaldo Farias. 

Isso aí não é apenas um belo elogio, como também uma espécie de roteiro básico para entender o trabalho recente de Ridolfi. Claro que a definição de Farias pode parecer bonita, mas não ser muito compreensível ao leitor comum, embora o leitor especializado entenda perfeitamente. Mas isto não é problema. 

A arte óptica levou a sensação de movimento para arte, criando ilusões de movimento, vibrações ou deformações. A pop arte, que faz o salto do modernismo para o pós-modernismo, fartava-se na exuberância das cores. Ao juntar as características das duas tendências, Ridolfi cria telas que produzem a ilusão de movimento fortemente colorido, algumas vezes como um caleidoscópio, outras como um chapéu mexicano visto do alto de uma roda gigante ou uma roda gigante vista da cadeira de um chapéu mexicano, às vezes como vitrais umedecidos de uma catedral, outras como uma torre de cubos desmoronando e assim por diante. 

A este trabalho, Agnaldo Farias dá os nomes de "movimentação de superfície", "porosidade das paredes", "embaralhamento" e "distorções de módulos planares". E poderia ter mais uma dezena de outros de nomes, mas todos levariam a um ponto comum: são recursos que proporcionam aos olhos a sensação de mobilidade. Em alguns momentos, como em Constelação, o resultado visual evoca colagens de Matisse dos anos derradeiros, quando sua obra ganhou um novo impulso. Já nos casos de Composição em Amarelo e Irradicações encontram-se sugestões de Victor Vasalery. E assim por diante. 

Se o leitor ficou curioso, o melhor que ele pode fazer é conferir pessoalmente o trabalho de Paolo Ridolfi a partir de quarta-feira (9), até o próximo dia 6 de dezembro (terça a sexta-feira das 10h às 19h e sábado das 10 às 17h). 

Serviço:
Abertura da exposição de Paolo Ridolfi.
Terça-feira (8), às 19 horas, na Galeria SIM.
Alameda Presidente Taunay, 130-A, Curitiba.

Sexo cabeça


Uma exposição do cacete. É esse o resumo de quase três horas perambulando pela mostra "Em Nome dos Artistas", em Sampa. Já nos primeiros passos pela mostra coletiva, o inglês Damien Hirst exibe sua referência bíblica na obra "Adão e Eva": dois corpos cobertos por um pano, em mesas de cirurgia, isolados em caixas de vidro.

Um em frente ao outro. De perto, os corpos não estão tão cobertos quanto imaginam as mais pudicas mentes. Dois rasgões no tecido revelam os sexos feminino e masculino com seus pelos e cores. De uma realidade surpreendente. Dois sexos mortos.

Mas você só vê a nudez de Damien Hirst se quiser. Os textos alertam, antes de você s se meter na sala, sobre a faixa etária indicada: maiores de dezoito de anos.

Os punhados de avisos norteiam os pais com seus rebentos. Num outro momento, em dois grandes quadros, o estadunidense Jeff Koons homenageia sua ex-mulher, a ex-atriz pornô Cicciolina.

Na primeira tela, a loiraça húngara Cicciolina surge encarando o público, com um olhar profundamente intenso, enquanto pratica sexo oral no artista. A tela, de tão real, mais parece uma fotografia.

Na segunda, Koons está penetrando sua ex, em pé, enquanto a beija de uma forma delicada. Engraçado é assistir o grupo de seis senhoras prestes a entrar na sala proibida. Transformadas em voyeurs, as velhinhas penetram serenas, mas logo abrem um sorriso, cochichando, quase em êxtase.

E cruzam as obras, quase sem graça, perturbadas, olhando de soslaio, como se presenciar o sexo do artista fosse atear fogo num índio no centro da cidade. O grupo de velhinhas ligeiramente constrangidas corre para ver o nome de Koons, identificado apenas do outro lado da sala.

Há cheiro de sexo a cada quinze minutos, em cada um dos três andares do pavilhão em que a mostra está instalada. Enforcados, nove homens – desenhos deles – estão pendurados com seus pênis à mostra.

A delicadeza do desenho, marcado por uma série de cores quentes, contrasta com a violência do conteúdo. Uma sutil ironia, instalada próxima de uma estátua de um homem nu e de um parto inusitado, com duas pernas abertas saindo de uma parede, parindo a perna de um homem, cabeluda, com um sapato.

Além do sexo

Nas obras para menores, uma projeção intrigante de Paul Chan dá uma ideia do que é o fim do mundo. Projetadas no chão, as imagens, em preto, exibem o solo se abrindo, o poste de luz, que treme, afundando junto com a terra, estilhaços de objetos voando, carros destruído, corpos humanos se jogando... é o caos, o fim do mundo, e a possibilidade de presenciar os últimos momentos. Sombras que aterrorizam dão um frio na espinha, passando pelas suas costas sem aviso prévio.

A mesma sensação de estranhamento vem das "Mil Cabeças", de Mike Bouchet. Espalhadas pelo chão, as cabeças te encaram enquanto você anda entre elas. Alguém sempre está te vigiando, atento aos seus passos.

A obra, nesse sentido, pode ser lida como uma metáfora do sujeito contemporâneo, que escancara sua rotina nas plataforma sociais – você sempre será vigiado – e dá ao público a sensação claustrofóbica,de ser notado por desconhecidos.

Rica em meter espanto – com ou sem sexo – e gozar o corpo humano, "Em Nome dos Artistas" é uma mostra do cacete.

Em São Paulo
Pavilhão Ciccillo Matarazzo (Pavilhão da Bienal), Parque do Ibirapuera, Portão 3. De terça a domingo, das 9 às 19h, e quinta-feira, das 9 às 22h. Fechado às segundas.

Entrevista com Daniela Lavra - Questões da pintura


Curadora Daniela Labra
Curadora Daniela Labra discorre sobre as questões da pintura contemporânea. Ela acredita que, hoje, há espaço para as mais diferentes vertentes da pintura. A produção pictórica deve acompanhar o leque de possibilidades que a arte contemporânea oferece, sejam elas formais ou temáticas


Gostaria que você falasse sobre esses "altos e baixos" da produção pictórica.


A "Morte da Pintura" é um termo que tem a ver com a decretação do possível esgotamento dessa prática frente às experimentações formais e conceituais possibilitadas por diversas mudanças do entendimento acerca da arte, que são propostas por artistas e pensadores no início do século XX. Desde então a pintura, até hoje compreendida como obra de arte ´a priori´ (quando vemos uma pintura, sabemos que "é" uma obra de arte, independente de suas qualidade plásticas, estéticas), tem sido tratada com amor e ódio por artistas que insistiram na pesquisa pictórica, e por outros que simplesmente chutaram a velha prática consagrada desde o renascimento como plataforma nobre para a representação de cenas mitológicas, bíblicas, épicas, políticas, aristocráticas, entre outras. Se examinarmos rapidamente os períodos da arte nos últimos 100 anos, iremos constatar que os "altos e baixos" da pintura também estiveram de acordo com oscilações do sistema da arte moderno, o qual vai se complexificando ao longo do século XX. Podemos associar a dita morte da pintura a momentos em que o experimentalismo com outros suportes e as discussões acerca da representação na arte estiveram mais prementes.


Qual o lugar da pintura na arte contemporânea?


De certo modo, acho que estamos vivendo esse momento de retomada da produção pictórica após muitas experimentações formais e temáticas nos anos 90 (que veio após o boom da pintura pop e pós-expressionista dos anos 1980). O mercado de arte e a arte compreendida como "commoditie" é algo que está muito forte atualmente, e me parece que a pintura nesse contexto, sendo ela uma forma de arte mais convencional, ganha destaque nas galerias. Por outro lado, é interessante como artistas contemporâneos traduzem sua visão de mundo nesse suporte tão clássico. Ao mesmo tempo, a pintura se apresenta como mero suporte de transposição de imagens, de grafismos sobre tela, que nada tem a ver com uma discussão sobre a própria pintura, posto que o formato é "vendável". E o mercado está cheio disso, especialmente quando se trata de algo aparentemente despretensioso de conceito, como é o caso da produção de ´street art´ em geral, que sai da rua e vai para uma tela com chassi do mesmo modo que iria parar numa camiseta. É claro que há artistas excelentes que saíram das ruas, mas o trabalho deles se torna realmente interessante, como pintura, quando se dão conta que estão fazendo pintura - com toda a carga histórica desse suporte - e não apenas grafismos sobre tela.


A pintura contemporânea surge como contraponto em relação à arte moderna ou como resíduo de uma continuidade?


A pintura contemporânea, como prática artística, tende a ser colocada no mesmo patamar da videoarte, da fotografia, dos objetos, entre outros. Não do ponto de vista formal, claro, mas do ponto de vista de que não há mais uma hierarquização de práticas, de acordo com a crítica. Já para o mercado, a pintura e a escultura únicas e originais, sempre serão mais valiosas do que um desenho em papel ou uma fotografia com tiragem limitada.


Será que a pintura contemporânea esta fincada no presente sem ter projetos futuros?


O futuro da pintura vai depender da trajetória de cada artista como individuo. Não há uma "verdadeira" pintura nem um "movimento pictórico" contemporâneo. É o artista que deve cuidar de sua trajetória, independente de sua pesquisa artística, e disso vai depender o futuro de sua obra. Se ela perdurará ou não.


Em 2009, você desenvolveu a curadoria da exposição "Investigações Pictóricas". Como foi essa experiência? De que forma você desenvolveu o diálogo com as obras expostas?


Desde 2003, desenvolvo projetos relacionados a formatos menos convencionais como intervenções urbanas, performances e obras interdisciplinares, e discutir pintura numa exposição foi a possibilidade de pesquisar um pouco mais o assunto. A exposição ocorreu no MAC de Niterói, sob a direção de Guilherme Bueno, e reuniu sete artistas. O foco estava na diversidade temática e formal das obras, e pretendeu um recorte despretensioso da produção atual e das pesquisas possíveis. Assim, tínhamos obras quase escultóricas, em suportes tridimensionais, e também grandes pinturas que se aproximavam mais de uma noção clássica de pintura figurativa.

Quadro de Klimt vendido por 29 milhões de euros

"Litzlberg am Attersee" (1915), de Gustav Klimt
D.R.
Leilão somou no total 200 milhões de euros.

Um quadro de 1915 do pintor Gustav Klimt, que tinha sido roubado pelos nazis durante a Segunda Guerra Mundial e que foi este ano devolvido à família do proprietário original, foi arrematado por 40 milhões de dólares (aproximadamente 29 milhões de euros) num leilão da Sotheby's de Nova Iorque.

O quadro, "Litzlberg am Attersee", uma paisagem austríaca, facilmente ultrapassou a estimativa mais alta da leiloeira que apontava para os 25 milhões de dólares (cerca de 18 milhões de euros). A obra de arte foi devolvida em Julho pelo Museu de Arte Moderna de Salzburgo a Georges Jorisch, de 83 anos, neto do judeu a quem os nazis roubaram o quadro. 

"Litzlberg am Attersee" pertenceu originalmente à colecção do magnata austríaco Viktor Zuckerka. Depois da sua morte, o quadro passou para a sua irmã Amalie Redlich, que acabou por ser deportada em 1941 e a sua colecção de arte confiscada pelos nazis e mais tarde vendida. Recentemente, a obra integrava a colecção do Museu de Arte Moderna de Salzburgo, a quem a família fez saber que doará parte do dinheiro da venda do quadro. Ao ser arrematado por 40 milhões de euros, o quadro tornou-se numa das paisagens mais caras de Gustav Klimt.

Outras das estrelas do leilão foi uma pintura a óleo de Pablo Picasso, "L'Aubade", vendida por 23 milhões de dólares (16,6 milhões de euros). "Os quadros de Picasso são cada vez mais desejados, sobretudo aqueles dos seus últimos anos, porque na sua idade madura ele [Picasso] viu-se obrigado a reinventar-se para poder competir com os artistas mais jovens", Simon Shaw, responsável da Sotheby's pelo departamento de arte moderna e impressionista. 

No mesmo leilão foram ainda batidos dois recordes: "Le pont d'Argenteuil et la Seine", um quadro do artista francês impressionista Gustave Caillebotte foi arrematado por 9,3 milhões de dólares (6,7 milhões de euros); e "Le reve (Rafaela sur fond vert)", da artista russa Tamara de Lempicka, vendido por 8,5 milhões de dólares (6,1 milhões de euros).

Ainda antes de o leilão acontecer, a Sotheby's vendeu, sem levar à praça, uma escultura em bronze de Henri Matissse, "Nu de dos". A obra de arte fazia parte do catálogo do leilão e estava avaliada entre os 20 e os 30 milhões de dólares (14 e 22 milhões de euros). No entanto, a escultura foi vendida num negócio privado, não se conhecendo os detalhes da compra nem a identidade do comprador.

No total foram vendidas 57 das 70 obras levadas a leilão, alcançando a soma de 200 milhões de dólares (cerca de 145 milhões de euros), contrastando com o leilão da Christie's, que aconteceu no dia anterior, terça-feira, onde cerca de metade das peças não encontraram compradores interessados, incluindo algumas das estrelas, como uma escultura do artista francês Edgar Degas e um retrato pintado por Picasso, tendo o leilão somado apenas cerca de 88 milhões de euros.

Caveiras fazem sexo em exposição de New York


Nova York está chocada com uma nova exposição que está em cartaz no Museu do Sexo, que fica na famosa 5ª Avenida, bem no coração de uma das cidades mais movimentadas do mundo. 

These Love-ly Bones usa esqueletos reproduzindo posições eróticas e sexuais e é obra do francês Jean Marc-Laroche. 

É claro que o cara não usou ossos humanos de verdade para produzir suas obras. Ele é escultor e moldou todos os esqueletos – ossinho por ossinho – em resina. Depois, ele ainda colocou uns olhinhos nas ossadas, pra deixar a parada ainda mais macabra. 

É pena que o francês não conheça a obra de uma dupla sertaneja das mais antigas do Brasil, Alvarenga e Ranchinho. Os dois compuseram uma música que é a trilha sonora perfeita para a exposição. 

Esqueletos são só osso, mas também dão no couro, veja o video !

Estátua da Liberdade faz 125 anos e fecha para manutenção em Nova York


A Estátua da Liberdade, símbolo de Nova York e do "sonho americano" para milhões de imigrantes, completou 125 anos nesta sexta-feira (28) e vai fechar por 12 meses para manutenção. 

Mais de mil pessoas dos Estados Unidos e da França, o país que ofereceu o monumento como presente no século XIX, participaram da comemoração na Liberty Island, na baía de Nova York. 

O monumento chamado "A Liberdade iluminando o Mundo" foi oferecido em 1886 pela França aos Estados Unidos em sinal de amizade para celebrar, com dez anos de atraso, o centenário da declaração de independência americana, em 4 de julho de 1776. 

Simboliza a liberdade, especialmente para os imigrantes que chegavam de barco aos Estados Unidos após uma longa travessia pelo Oceano Atlântico.

Visitante observa a Estátua da Liberdade nesta sexta-feira (28) (Foto: AP)Visitante observa a Estátua da Liberdade (Foto: AP)



"Ela continua sendo uma inspiração para as pessoas de todo o mundo", disse nesta sexta-feira o prefeito de Nova York, Michael Bloomberg. 

"É um símbolo de liberdade, tolerância e abertura, que representa os mais altos ideais de nosso país", afirmou o secretário americano do Interior, Ken Salazar. 

A festa desta sexta-feira lembrou a inauguração da estátua, em 28 de outubro de 1886, na presença do então presidente americano, Grover Cleveland. 

A cerimônia desta sexta-feira também incluiu a naturalização de 125 imigrantes, entre eles a francesa Eloise Zinger, 30 anos. 

"Me sinto francesa, mas agora também americana", disse. 

Durante anos, a estátua, obra do escultor francês Auguste Bartholdi, foi a primeira imagem que os milhões de imigrantes que chegavam de barco aos Estados Unidos tinham após a longa travessia do Oceano Atlântico. 

Após completar 125 anos, o monumento será fechado ao público durante 12 meses a partir de 29 de outubro para trabalhos de manutenção. 

A estátua já tinha sido fechada em 1984 para permitir uma primeira restauração antes do centésimo aniversário. 

Após os atentados de 11 de setembro de 2001, seu acesso também foi fechado por vários anos. 

A partir de 29 de outubro, os turistas não poderão mais entrar na estátua e ter acesso à escadaria que leva até sua coroa, embora possam continuar visitando a Liberty Island.

Artista constrói escultura com gigantes letras de ferro semelhantes às usadas para marcar animais



Ao pensar na produção de José Paulo, a cerâmica é o primeiro material que nos vem à mente. Mas o artista plástico pernambucano de trajetória consolidada arriscou uma retomada de novas formas de expressão para a exposição Para nunca mais me esquecer, inaugurada nesta quarta, às 19h, no Centro Cultural Correios. Com curadoria do crítico de arte carioca Marcelo Campos, a mostra traz seis trabalhos de José Paulo, onde os tons ocres do barro se fazem presentes, porém não são o único caminho, como se comprova em desenhos, pinturas, esculturas.

Numa estante de grandes proporções, tipos móveis em alto relevo são posicionados ao contrário, como numa placa tipográfica, de modo que as letras cunhadas no barro formem a definição da palavra dor, retirada do dicionário. “A cerâmica é um vício, e a ele me dediquei durante uns dez anos. Mas resolvi retornar a outros conhecimentos, que trago comigo desde minha formação como artista”, admite José Paulo, que escolheu uma escultura para batizar a exposição. Para nunca mais me esquecer é representada por um alfabeto com ferros de marcar animais, ampliados para a grande escala, pondo em xeque a capacidade de ferir e deixar cicatrizes.

Marcelo Campos destaca a possibilidade de materialização da obra de José Paulo, ao abordar conceitos como o da dor. “A escrita é domesticação, embora não queira dizer nada perto do que se sente. Cabe à arte nos apontar estes vínculos”, ressalta Campos, lembrando que as criações do artista se potencializam ao fazer refletir sobre a noção de propriedade ou o ambiente da literatura de cordel ou das olarias, numa interpretação que foge da obviedade.

A exposição se divide em duas salas. Numa delas estão pinturas pequenas e a escultura e o painel. No outro espaço, cinco mesas com carimbos siameses, num jogo de opostos com palavras como caos e ordem; ou cópia e original; esculturas feitas com hastes de máquina de escrever superdimensionadas e ainda três desenhos em grafite sobre papel. Retratam ícones da beleza ocidental com seus narizes mutilados (Grace Kelly, Brigitte Bardot e Liz Taylor). Motivados pela fotografia de uma jovem afegã que estampou a Time, que teve o nariz arrancado pelo marido. “O que desejo questionar é a relação do homem com a natureza. Não tenho as respostas, mas trago isso para minhas preocupações estéticas, pois a humanidade está caminhando numa velocidade descontrolada, sem qualidade de vida”, alerta. 

Saiba mais:
José Paulo e Marcelo Campos se conheceram em 2009, quando o artista foi convidado a expor na 10ª Bienal de Havana, em Cuba.

A escultura-título da mostra, Para nunca mais me esquecer, não é inédita. Integrou a mostra Tripé Escrita, no Sesc Pompéia, em São Paulo, em abril do ano passado, quando José Paulo expôs ao lado dos também pernambucanos Juliana Notari e Delson Uchoa.

Até 29 de outubro, José Paulo expõe no Centro Cultural Correios, no Pelourinho, em Salvador, na Bahia, a mostra Retratos e autorretratos, que já foi vista no Recife, na galeria Amparo 60.

O artista, nascido em 1962, é graduado em Arquitetura pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Entre os momentos marcantes do barro na obra de José Paulo, estão a mostra Repetir (2005), na qual ele criou um tapete de tijolos maciços, e Quimera (2003), instalação no Mamam.

Serviço
Exposição Para nunca mais me esquecer
Onde: Centro Cultural Correios (Av. Marquês de Olinda, 262, 4º andar, Bairro do Recife)
Quando: Abertura nesta quarta, às 19h. Visitação até 25 de dezembro. De terça a sexta-feira, das 9h às 18h; sábados e domingos, das 12h às 18h
Informações: (81) 3224-5739
Entrada gratuita

Tatiana Meira

A maior exposição de Picasso na China abriu em Xangai


A maior exposição de obras de Pablo Picasso já organizada na China será inaugurada na noite desta segunda-feira em Xangai, onde serão apresentadas 48 pinturas do artista durante três meses.

 As obras, que procedem essencialmente do Museu Picasso de Paris, fechado por mais de dois anos por trabalhos de restauração, são apresentadas no Pavilhão China da exposição universal realizada durante seis meses no ano passado nesta megalópole do leste chinês.

Além das pinturas, também serão apresentados ao público chinês sete esculturas e outros sete desenhos de um dos fundadores do cubismo.

Há muito tempo "tentamos buscar a forma de montar uma exposição na China", explicou à AFP Anne Baldassari, curadora do Museu Nacional Picasso, presente em Xangai para a inauguração.

"É uma maneira para nós de educar duas ou três gerações entre o público chinês", acrescenta.

A exposição cobre a longa carreira artística de Picasso, desde uma obra criada quando tinha 14 anos a outra pintada pouco antes de sua morte, em 1973.

As obras apresentadas em Xangai foram expostas anteriormente em Taipé. O Museu Picasso está buscando um local de exposição em Pequim. Posteriormente, a coleção será exposta em outras cidades da Ásia, explicou Baldassari.